TO na novela! Quem diria?

Ok, não é bem uma novidade para quem assiste à novela Viver a Vida, mas não dá pra deixar passar essa, né? Mesmo antes da novela começar, a mídia já anunciava bastante o acidente que aconteceria com a personagem Luciana (Alline Moraes) e que a deixaria paraplégica. Aí, já dava pra ver que o processo de adaptação da personagem à sua nova condição seria bem enfocado na novela, até pela carga dramática que uma situação assim carrega, na vida real ou fora dela. Para o público em geral é um bom momento para conhecer as dificuldades cotidianas e também a capacidade de recuperação e de exploração de potenciais apresentadas por quem vive uma situação dessas. Afinal, até bem pouco tempo a expressão corrente para designar alguém que fica paraplégico ou tetraplégico era “entrevado” (terrível, não? me lembro da minha falecida avó falando isso!). E o termo reflete bem o que se esperava de uma pessoa nessa condição: que ela não teria mais vida, nem oportunidades, restando apenas ficar deitada na cama esperando o tempo passar. Claro que não dá pra tentar florear a situação, como pessoas no extremo oposto fazem: as dificuldades vivenciadas por essas pessoas são concretas e presentes em vários momentos do cotidiano. Imagine, por exemplo, que você não pode mais simplesmente levantar da cama no meio da noite pra ir ao banheiro – e isso se você ainda conseguir controlar essa vontade! E por aí vai: ir de um lugar a outro, alcançar objetos, subir uma escada, jogar futebol e uma infinidade de atividades do dia-a-dia tornam-se muito mais difíceis e até impossíveis. E é justamente nesse aspecto que o Terapeuta Ocupacional intervém. Ele avalia as dificuldades e necessidades do paciente e propõe os recursos (como atividades e adaptações) que o auxiliarão a participar de forma ativa no seu cotidiano. Na novela, a Terapeuta Ocupacional Graziela, ao ser apresentada à Luciana, já disse a ela que iria tomar suas medidas para a confecção de sua cadeira de rodas – aliás, aposto que a maioria dos espectadores nem imagina que um TO faz isso.

Tomara, portanto, que essa personagem TO apareça mais pois, mesmo em poucas cenas, é muito bacana perceber essa visibilidade. Afinal, essa é uma forma de as pessoas conhecerem mais nosso trabalho e perceberem (de uma vez por todas, espero!!) que TO não se trata de ocupar o tempo ocioso das pessoas com artesanato e que o papel da TO na recuperação e no tratamento de pessoas que sofreram trauma medular é de valor fundamental.

Pra quem ainda não assistiu, veja a cena com a TO aqui.

Ah, e claro, vale entrar em contato com a Globo pelo Fale Conosco ou com o diretor através do Fale com o Diretor para fazer comentários, elogios e solicitações.

Matéria sobre TO e Desenvolvimento Infantil

O artigo abaixo foi publicado no Jornal Cruzeiro do Sul em 27 de outubro e é de autoria da professora e coordenadora do curso de Terapia Ocupacional da Universidade de Sorocaba (UNISO), Cíntia de Menezes Fernandes Bernal.  A matéria é bem esclarecedora e objetiva, então reproduzo o texto na íntegra:

A Terapia Ocupacional na Infância: mediando a constituição de potenciais de inclusão

As políticas públicas precisam garantir a proteção e a assistência já previstas na legislação, a exemplo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e dos pressupostos do Sistema Único de Saúde (SUS)

É sabido que a infância é tempo privilegiado para o desenvolvimento e para a constituição da personalidade do ser humano. Também é fato que a atualidade tem marcado de maneira singular as relações familiares e o cuidado com as crianças. A pobreza e a desigualdade social, o desemprego e a marginalidade, além de doenças, deficiências e outros agravos que podem acometer o curso natural da infância são fatores que colocam em risco um desenvolvimento saudável. Por isso, as políticas públicas precisam garantir a proteção e a assistência já previstas na legislação, a exemplo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e dos pressupostos do Sistema Único de Saúde (SUS). No campo da assistência, em seus diferentes níveis, a Terapia Ocupacional tem desenvolvido ações de destaque, em relação à saúde para a infância.

O terapeuta ocupacional, profissional da saúde que integra a equipe multidisciplinar, é responsável por analisar e promover a rotina ocupacional do paciente em seus diferentes aspectos, definindo ações de prevenção ou, ainda, propondo e desenvolvendo programas de tratamento, a fim de possibilitar a melhora do seu estado de saúde e da sua qualidade de vida. Seu objetivo central é capacitar a pessoa para alcançar maior grau de autonomia funcional, a fim de que ela possa adquirir a autonomia e independência necessárias à manutenção de uma vida ativa, eliminando, reduzindo ou evitando os processos de exclusão.

O eixo norteador dos terapeutas ocupacionais é o uso específico de atividades, que podem ser de autocuidado, cinesioterapêuticas, expressivas, lúdicas, artísticas e profissionais; podendo, ainda, incluir o planejamento e a utilização de recursos, dispositivos ou tecnologias assistivas (órteses, adaptações e cadeiras de rodas), quando necessário.

Com crianças, esse profissional utiliza a atividade lúdica como recurso terapêutico, pois é brincando que a criança desenvolve sua capacidade motora, sensorial, cognitiva, social e emocional. Ao brincar, a criança interage com objetos da cultura e com outras crianças, experimenta diferentes regras e sentimentos, o que contribui para o desenvolvimento de habilidades psicossociais.

Apoiado numa visão ampliada de saúde, entendida como produção de vida e percepção do prazer e do bem-estar, o terapeuta ocupacional que atua com crianças privilegia a atividade lúdica e estabelece o foco na potência e na integração dos diferentes eixos do desenvolvimento infantil.

Assim, terapeuta ocupacional e atividade funcionam como agentes facilitadores para que a criança estabeleça vínculos sociais e amplie as conquistas do desenvolvimento e da aprendizagem.

Quando inserido em programas voltados à infância, o terapeuta ocupacional atua em unidades básicas de saúde, centros de atenção psicossocial, ambulatórios, clínicas, hospitais, centros de reabilitação, escolas e creches, ou ainda na forma de atendimento domiciliário. Na rotina dos atendimentos, utiliza jogos, brinquedos e brincadeiras infantis. Todas as atividades são planejadas, contextualizadas e, quando necessário, adaptadas para favorecer o processo do desenvolvimento.

Em Sorocaba, uma referência de atenção terapêutica à infância é o Núcleo de Terapia Ocupacional da Uniso, que oferece projetos voltados à saúde mental infantil, a bebês e crianças com risco e/ou atraso no desenvolvimento, ou ainda para crianças com dificuldades educacionais. Os atendimentos são realizados individualmente ou em grupos, de acordo com o ciclo de vida da criança e sua singularidade.

Professora Cíntia de Menezes Fernandes Bernal, Terapeuta Ocupacional, Doutora em Educação, Coordenadora do curso de Terapia Ocupacional da Universidade de Sorocaba (Uniso). (cintia.bernal@prof.uniso.br)

Acessibilidade e Usabilidade

Acessibilidade é um termo bastante difundido hoje em dia. Mas até que ponto a sua utilização é realmente adequada? E o quanto esse termo pode ter a ver com a Terapia Ocupacional?

Bem, para responder a essas perguntas  precisamos primeiro definir o que é acessibilidade. Vou começar com uma definição retirada da legislação federal, mais precisamente do Decreto n° 5.296/04, que “Regulamenta as Leis n°s 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências”, e que em seu art. 8°, inciso I, define acessibilidade como:

condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços de transporte e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida”.

A NBR 9050 de 2004, que dispõe sobre a acessibilidade de pessoas portadoras de deficiência a edificações, espaço, mobiliário e equipamento urbanos, define acessibilidade como:

Possibilidade e condição de alcance, percepção e entendimento para a utilização com segurança e autonomia de edificações, espaço, mobiliário, equipamento urbano e elementos

e acessível como:

Espaço, edificação, mobiliário, equipamento urbano ou elemento que possa ser alcançado, acionado, utilizado e vivenciado por qualquer pessoa, inclusive aquelas com mobilidade  reduzida. O termo acessível implica tanto acessibilidade física como de comunicação”.

Os elementos citados nas definições acima, por sua vez, podem ser entendidos, segundo a mesma norma técnica, como “Qualquer dispositivo de comando, acionamento, comutação ou comunicação. São exemplos de elementos: telefones, intercomunicadores, interruptores, torneiras, registros, válvulas, botoeiras, painéis de comando, entre outros”.

Vemos que as definições enfocam a utilização de espaços e de equipamentos, de uma forma geral, para definir acessibilidade. Além disso, percebemos que o uso, em si, não é suficiente, devendo acontecer com segurança e autonomia. Esta última, inclusive, pode ser alcançada através do uso de assistência. Cabe também lembrar que o termo não se restringe ao alcance e uso do espaço físico (público e privado), mas também de sistemas e meios de comunicação e informação (como telefone, computador e internet, entre outros).

Apesar de as normas definirem acessibilidade em termos do alcance de uso para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, acredito que também é importante não nos esquecermos das condições necessárias ao acesso a espaços e informações, bem como à compreensão destas últimas, por parte de todos os grupos da população. Isto envolve pessoas de todos os níveis educacionais e socioeconômicos, que muitas vezes podem até ter acesso a informações e a espaços, mas sem as condições apropriadas para sua utilização e seu aproveitamento.

A partir daí, percebemos que tornar um espaço acessível, por exemplo, não é tarefa tão simples, como se bastasse colocar uma rampa qualquer no lugar da escada para a utilização de cadeirantes. Afinal, é preciso considerar os diferentes tipos de deficiências e dificuldades que qualquer pessoa pode apresentar, além da viabilidade das mudanças a serem implantadas. Outro ponto fundamental é a legislação sobre o assunto em âmbito federal, estadual e municipal. Para que tudo isso seja atendido, portanto, o ideal é que em projetos para garantir a acessibilidade – seja a um espaço físico ou a determinada informação – aconteça a participação de diferentes profissionais, de acordo com as demandas e características do público a ser beneficiado e do ambiente. Assim, podem participar engenheiros, arquitetos, designers, analistas de informação e, claro, terapeutas ocupacionais, que podem contribuir com seu conhecimento da interação entre o indivíduo – com seus fatores cognitivos, psicossociais e físicos – e o contexto, a fim de garantir a todos a realização satisfatória de suas atividades de vida diária, de trabalho e de lazer em todas as situações possíveis (ah, e pra quem não conhece, sugiro consultar a Resolução COFFITO 316/06,  que “Dispõe sobre a prática de Atividades de Vida Diária, de Atividades Instrumentais da Vida Diária e Tecnologia Assistiva pelo Terapeuta Ocupacional e dá outras providências”).

Outro termo que de certa maneira é relacionado à acessibilidade e que vemos de vez em quando, principalmente na internet, é usabilidade. Ela é empregada especialmente por profissionais que desenvolvem sistemas e aplicativos de informática e/ou estudam a interação do homem com o computador, sendo definida pela International Organization for Standardization através da norma ISO 9241-11, de 1998, como:

medida pela qual um produto pode ser usado por usuários específicos para alcançar objetivos específicos com eficácia, eficiência e satisfação em um contexto de uso específico”.

A eficácia é considerada como a capacidade de executar uma tarefa de forma correta e completa; a eficiência se refere à quantidade de esforço e recursos necessários (tempo, dinheiro, memória, entre outros) para se chegar a um determinado objetivo; a satisfação, por sua vez, se refere ao conforto e à aceitação do trabalho na utilização do sistema. Também segundo a ISO 9241, a usabilidade pode ser medida de acordo com a facilidade de aprendizado, de memorização (capacidade de utilizar o sistema após certo tempo sem ter que reaprender a interagir com ele) e a baixa taxa de erros. Portanto, vemos que a aplicação desse conceito e de suas diretrizes no desenvolvimento de softwares, sites e sistemas é bastante útil para garantir a usuários de todos os níveis e com diferentes tipos de dificuldades o acesso a informações e o seu manejo de forma fácil, independente e proveitosa.

acessibilidade

Acessibilidade refere-se ao alcance e ao uso seguro, autônomo e satisfatório de espaços físicos, equipamentos e informações por públicos com diferentes tipos de dificuldades.

Para saber mais:

Lei 10.098/00Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências.

Normas da ABNT sobre Acessibilidade

Acessibilidade – site Bengala Legal

Acessibilidade – site do Inmetro

Acessibilidade na Wikipedia

Cartilha de Acessibilidade

Usabilidade: um pouco da história e definição

Normas ISO para Usabilidade

Usabilidade na Wikipedia

Post atualizado: TO, direção e mobilidade

Hoje encontrei alguns links úteis para acesso às normas regulamentadoras da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT – que tratam da acessibilidade a meios de transporte. Entre elas, destaco as NBR 14970-1, 14970-2 e 14970-3, que tratam da Acessibilidade em Veículos Automotores (Requisitos de Dirigibilidade – 1, Diretrizes para avaliação clínica de condutor -2, Diretrizes para avaliação da dirigibilidade do condutor com mobilidade reduzida em veículo automotor apropriado – 3). Como esse material tem tudo a ver com o post que escrevi no mês passado, também coloquei as informações lá.

Os links e as informações foram retirados da página do Programa de Acessibilidade do  Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Paraná – CREA-PR. Também é possível acessar essas normas através do site do Núcleo Regional de Informação sobre Deficiência.

Mais esclarecimentos sobre o Rol de Procedimentos da ANS

Para quem precisa saber mais como funciona o “Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde” e a Consulta Pública, seguem alguns esclarecimentos gerais, atendendo a pedidos:

Bem, o que está sendo proposto é a alteração do Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde oferecidos pelos planos privados de saúde e que devem ser a referência básica para a cobertura mínima obrigatória da atenção à saúde por esses planos. Estes procedimentos são listados no Anexo I da Resolução Normativa  – RN – 167/07, sendo que alguns deles dependem de Diretrizes de Utilização, especificadas no Anexo II, para orientar sua cobertura.

De acordo com a RN 167/07, a cobertura atual de sessões de TO é limitada da seguinte forma, conforme o disposto no Anexo I:


Procedimento:  Consulta / Sessão de Terapia Ocupacional – 6 por ano
Subgrupo: Terapêutica
Grupo/Capítulo: Procedimentos Clínicos Ambulatoriais e Hospitalares
Segmentação: Ambulatorial


Ou seja, o número de consultas/sessões é limitado a 6 por ano para o plano ambulatorial (cuja referência está na Seção II do Capítulo III da RN 167/07) e depende de indicação de médico do plano. Não há diretrizes de utilização para orientar a cobertura dessas sessões, já que elas são previamente limitadas para qualquer caso (em caso de internações, funciona o que já expliquei no post anterior sobre a Consulta Pública).

A sugestão de alteração proposta pelo grupo técnico responsável da ANS é a seguinte, com relação ao Anexo I:


Procedimento:  Consulta / Sessão de Terapia Ocupacional (com Diretriz de Utilização)
Subgrupo: Consultas, Visitas Hospitalares ou Acompanhamento de Pacientes
Grupo/Capítulo: Procedimentos Gerais


Assim, de  “Consulta/Sessão de Terapia Ocupacional – 6 por ano” passa para “Consulta/Sessão de Terapia Ocupacional (com Diretriz de Utilização)”.

Como está sendo proposta uma Diretriz de Utilização para orientar a cobertura do procedimento, também foi sugerida uma alteração no Anexo II (já que as diretrizes ficam especificadas nessa parte), acrescentando-se o seguinte (os números referem-se à ordem de sugestões apresentadas pelo grupo técnico, que englobam procedimentos de áreas diversas):


SAÚDE MENTAL
53. CONSULTAS/SESSÕES COM PSICÓLOGO E/OU TERAPEUTA OCUPACIONAL
1. Cobertura obrigatória de 40 consultas/sessões por ano de contrato quando preenchido pelo menos um dos seguintes critérios:
a. pacientes com diagnóstico de esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e transtornos delirantes (CID F 20 a F 29);
b. pacientes com diagnóstico de Transtornos da infância e adolescência (CID F 90 a F 98);
c. pacientes com diagnóstico de Transtornos do desenvolvimento psicológico (F80 a F89).
54. CONSULTAS/SESSÕES COM TERAPEUTA OCUPACIONAL
1. Cobertura obrigatória de 12 consultas/sessões por ano de contrato, quando preenchido pelo menos um dos seguintes critérios:
a. pacientes com diagnóstico de Demência (CID F 00 à F 03);
b. pacientes com diagnóstico de Retardo (CID F 70 à F 79).


Vemos que, de acordo com a proposta, o número de consultas aumentaria de 6 para 40 nos casos de o paciente apresentar um dos diagnósticos listados nos itens a a c do item 53. Por outro lado, se o paciente apresenta diagnóstico enquadrado no grupo “Demência” ou “Retardo” da CIF, o número de sessões por ano aumentaria para apenas 12.

Então, pode-se fazer mais de um tipo de sugestão para ampliar a cobertura dos serviços de TO, conforme as opções disponibilizadas no formulário da Consulta Pública, como:

- Alteração de Diretriz de Utilização (exemplo: aumento no número de consultas/sessões propostas por ano em relação ao sugerido  no item 54);

- Inclusão de Diretriz de Utilização (exemplo: aumento no número de consultas/sessões de TO por ano não apenas na área de saúde mental);

- Alteração de artigo da Resolução Normativa 167/07 (exemplo: artigo 14, que dispõe sobre a cobertura das sessões de Terapia Ocupacional).

Estes são apenas exemplos, afinal vocês podem fazer as propostas que julgarem relevantes e convenientes. Para isso, acessem este endereço e deixem sua contribuição no formulário ao final da página.

Por fim, reforço uma coisa que considero fundamental e nunca é demais repetir: precisamos aproveitar todos os instrumentos de participação popular que nos são oferecidos – a questão de serem aproveitados ou não já é outra etapa do processo que também devemos acompanhar. Com isso, exercitamos nossa cidadania e nossos direitos, de forma a aperfeiçoá-los e garanti-los constantemente.


Post relacionado:

Revisão do Rol de Procedimentos da ANS

Tecnologia para auxiliar a escrita

Em 16 de outubro a  BBC News publicou matéria, de autoria da jornalista Jane Elliott (Um robô guia a escrita de Tom), sobre a utilização de um braço robótico como auxiliar no tratamento de crianças com dispraxia (dificuldade de planejar e executar padrões de movimento de maneira habilidosa ou não habitual*). Vejam abaixo partes dessa matéria:


Tom Powis, o mais novo de trigêmeos de 11 anos, tem dificuldades para escrever, usar botões e amarrar cadarços, embora não apresente dificuldades de aprendizagem. A fisioterapeuta Gillian, sua mãe, explica que Tom apresenta dispraxia, o que o deixa frustrado.

Tom precisa treinar continuamente sua escrita, o que ele acha difícil, chato e cansativo. Mas um novo “braço robótico”, que Tom tem utilizado  pelas últimas quatro semanas para praticar suas habilidades motoras finas, pode ser a solução.

O dispositivo foi desenvolvido e testado por uma equipe na Universidade de Leeds na Inglaterra, em colaboração com colegas das universidades de Aberdeen na Escócia e Indiana nos Estados Unidos.  Ele permite que crianças com problemas de coordenação  pratiquem em casa exercícios terapêuticos prescritos usando um sistema desktop interativo, que também pode monitorar como elas se movimentam, através da medida de fatores como suavidade e velocidade do movimento.


Tom utilizando o braço robótico

Os exercícios envolvem o uso de uma caneta, guiada pelo braço robótico, para empurrar objetos ao longo de uma pista 3D na tela do computador. Parece ser uma forma divertida de treinar através de repetição, tanto que os irmãos de Tom (sem dificuldades motoras) também têm se interessado por ele.

O pesquisador Mark Mon-Williams, professor de psicologia cognitiva na Universidade de Leeds, diz que um dos grandes benefícios do sistema é o fato de ele ser portátil e poder ser utilizado em casa. De acordo com a matéria, ao menos 5% das crianças (lembrando que esses dados são para a Inglaterra) são afetadas por dispraxia, e a maioria delas provavelmente não receberá a ajuda necessária devido à grande demanda ou ao limite de recursos em Terapia Ocupacional (alguns podem receber apenas uma sessão por ano). De acordo com Mon-Williams, “Não há terapeutas suficientes para o numero de crianças que têm dificuldades de movimento no Reino Unido”, que completa dizendo que eles precisam buscar tecnologias de auxílio para preencher essa lacuna (vocês vão dizer:  mas aqui tem terapeuta sobrando! Bom, mais ou menos: se considerarmos os terapeutas “disponíveis” sim, mas se fizermos um levantamento das reais necessidades e do número potencial de clientes, veremos que a demanda também é grande aqui – é a velha história do abismo entre as necessidades de saúde da população e seu atendimento efetivo).

Na reportagem, o pesquisador diz que no passado as pessoas pensavam: ‘então, você não é muito bom na escrita ou na cutelaria, mas que problema há nisso?’, o que não é verdade, já que crianças com tais dificuldades podem apresentar outros problemas, relacionados ou não (ok, nenhuma novidade para TOs!).

A mãe de Tom, Gillian, reconhece a importância de se desenvolver a escrita e diz que o dispositivo é também  uma boa diversão,  pois as crianças precisam do input ‘intenso’ e usar o robô com feedback visual torna o aprendizado mais fácil e divertido.

Agora estão sendo planejadas pesquisas para investigar por quanto tempo o robô deve ser usado para se atingir os melhores resultados. Esse sistema básico deve estar disponível para o público em geral em 2012.


Aqui vocês podem ver outras matérias, também publicadas pela BBC News, sobre esse dispositivo: Robot shows children how to move, em junho de 2006, e Home-help for dyspraxic children, em setembro de 2001. Para saber mais sobre outros projetos da equipe de que faz parte o professor Mark Mon-Williams na Universidade Leeds, clique aqui. Esses projetos são relacionados  ao desenvolvimento de avaliações e dispositivos auxiliares de tratamento para dificuldades cognitivas, perceptivas e de movimento em geral (infelizmente, pelo pouco que pesquisei no site, não vi referências à Terapia Ocupacional, mas os projetos e suas aplicações parecem interessantes e promissores).

* Definição retirada do Capítulo 25 – Teorias Originadas das Perspectivas de Desenvolvimento da Criança – parte 3 – Integração Sensorial – de Olga Baloueff, do livro Willard & Spackman Terapia Ocupacional, de M.E.  Neidstadt e E.B. Crepeau. Vejam mais sobre o assunto (em inglês) aqui.

Post relacionado:

Terapia Ocupacional e dificuldades de escrita

Chegou!

40th

Parabéns a todos os Terapeutas Ocupacionais pelo seu dia! E que possamos comemorar novas conquistas todos os anos!

BannerTO2-internet-crop

Questão de gênero

Se você já fez faculdade ou está fazendo, responda rápido: quantos homens havia (ou há) na sua turma? Se você for Terapeuta Ocupacional ou está estudando para ser um(a), certamente você nem titubeou para quantificar. Claro, distinguir um, dois ou três homens em uma classe cheia de mulheres não é nada difícil…

O predomínio feminino na profissão não é exclusividade nossa; na verdade, áreas ligadas ao “cuidar”, além de outras relacionadas às ciências humanas e à educação, são dominadas por mulheres, como  enfermagem, serviço social, fonoaudiologia, fisioterapia, pedagogia e psicologia, apenas para citar algumas.

De fato, nossa sociedade associa esses trabalhos a características consideradas inerentemente femininas, como paciência, senso maternal, delicadeza e sensibilidade. Para muitos, inclusive, tais características são definidas biologicamente, e para outros os fatores sociais são determinantes. Não vou discutir aqui o peso que cada um desses fatores pode ter, já que isso dá um livro (ou vários!), só adianto que não podemos nos prender a extremos. Afinal, certas diferenças entre os sexos são óbvias, mas muito do que consideramos feminino ou masculino é consequência de concepções sociais e culturais profundamente arraigadas. E tomar essas concepções de forma acrítica para pensar sobre a questão de gênero no trabalho acaba levando ao reforço de estereótipos – que, sabemos, podem não ser nada positivos.

Nesse blog, por exemplo, a autora, estudante de Enfermagem, fala sobre a ligação de vários estereótipos com essa profissão ao longo do tempo, e toca em um ponto importante: a da imagem da mulher como inferior e subserviente – no campo profissional, isso se refletiu historicamente na submissão à figura do médico. A questão da subserviência e do feminino também é abordada por Mirla Cisne, assistente social, em sua dissertação de mestrado sobre as mulheres e o Serviço Social. Segundo ela, o “Serviço Social, com sua marca histórica de ‘feminização’, carrega a desvalorização e a subordinação de uma profissão exercida por mulheres devido à desigualdade estrutural de gênero” (parênteses para esclarecer: ela não diz, de forma simplista, que a culpa é das mulheres, ok? apenas faz uma observação de fatos e elementos históricos, culturais e sociais).  E continua com outra colocação que também pode ser estendida ao nosso caso: “Sendo predominantemente feminino, o Serviço Social, como todas as demais profissões tidas como ‘femininas’, ‘para mulheres’, carrega um estatuto de subalternidade conferido historicamente pelas relações desiguais estabelecidas na sociedade.” E cita Sônia Heckert (também autora na área do Serviço Social) com uma interessante observação: “A baixa remuneração e o  desprestígio social são duas consequências da concentração feminina em determinadas carreiras”. Em outro artigo sobre a atuação feminina, dessa vez na Psicologia,  as autoras (Ana Maria Vilela, Dejane dos Santos e Lucila Lima) escrevem que: “Sabemos que um dos caminhos que levam a mulher para o espaço público é a sua profissionalização e entrada no mercado de trabalho, exercendo funções que, entretanto, não a desvinculavam da imagem de cuidadora da família. Neste caminho, os espaços por ela ocupados se transformaram, sendo exemplar o processo de feminilização da educação, antes um campo profissional ocupado sobretudo por homens e que possuía grande prestígio social e que, posteriormente, a partir da entrada feminina, sofreu um significativo processo de desvalorização que teve como conseqüência, por exemplo, a decadência dos salários e das condições trabalhistas.”

Tais considerações são muito interessantes e abrem campo para uma série de discussões que envolvem também a inserção e a consolidação profissional de campos dominados por mulheres, mas é fundamental acrescentar outra colocação de Mirla Cisne em sua tese para não chegarmos a conclusões precipitadas ou desvirtuadas: “É importante (…) não atribuir essa subalternidade e/ou marginalidade da profissão ao fato de ela ser exercida, em sua maioria, por mulheres,  como se um simples processo de inversão ou de entrada de um número significativo de homens fosse revertar essas implicações, o que reforça a supremacia hierárquica dos homens na sociedade. Pensar assim é estar na contramão das análises numa perspectiva de gênero que possibilitam perceber que essa subalternidade é fruto de uma construção social, portanto histórica, e não de uma essência natural feminina. Ou seja, não é por ser exercida em sua maioria por mulheres que  a profissão carrega um estatuto de subalternidade, mas pelas construções sócio-históricas em torno do feminino” (grifos meus).

No artigo “Trabalho de Mulher? Um levantamento sobre profissão e gênero”, os autores Raquel Belo, Tâmara Souza e Leôncio Camino relatam os resultados da sua pesquisa que consistiu em entrevistar uma amostra aleatória de homens e mulheres e pedir para que citassem profissões e atividades consideradas socialmente mais adequadas para cada sexo e falassem sobre sua opinião a respeito. As cinco atividades “femininas” mais citadas foram: empregada doméstica, enfermeira, secretária/telefonista, manicure/esteticista/cabeleireira e pedagoga/professora infantil, enquanto as “masculinas” foram: pedreiro/encanador/pintor, motorista, mecânico, policial/delegado/militar e engenheiro. Os homens entrevistados se mostraram mais propensos a acreditar na segmentação das profissões em função do sexo. Outra observação dos autores corrobora o que já foi dito acima a respeito da subserviência associada a profissões  “femininas”, quando falam sobre a inserção da mulher no campo de trabalho: por volta dos anos 40 e 50, quando essa inserção começou a ocorrer de maneira mais forte, os trabalhos realizados pelas mulheres “caracterizavam-se pela subordinação à hierarquia masculina, sendo inclusive denominados ‘atividades de apoio’”.

Ao longo do tempo esse quadro vem mudando, mas ainda se percebe como o senso comum influencia na escolha da profissão. Segundo as autoras do artigo “Profissão e gênero: uma questão biológica ou social?” (referências abaixo), “dados recentes revelam que as meninas que concluem o Ensino Médio continuam candidatando-se no exame de vestibular em muito maior proporção nos cursos considerados ‘tradicionalmente femininos’, nas áreas de ciências sociais e humanas. (…) Uma das prováveis explicações seria a persistência de estereótipos sexuais na educação, ao lado da pressão da sociedade patriarcal ainda existente no Brasil.”

Mulheres  e produção científica

Um achado nas referências que busquei é preocupante: no artigo sobre mulheres na Psicologia (já citado acima), as autoras relatam que “No campo científico da Psicologia observamos que, apesar de inúmeras mulheres escreverem artigos, publicarem trabalhos em livros e revistas, realizarem experimentos, os mesmos não ultrapassaram a barreira do tempo para chegar até nós com a mesma relevância que foi dada aos estudos realizados por homens”, e completam pouco depois: “Temos muitos casos de ‘invisibilidade’ do trabalho feminino, não só na psicologia como em outras disciplinas”. Elas fizeram um levantamento quantitativo de artigos escritos por mulheres e homens em determinado periódico ao longo de vários anos e verificaram que havia um número um pouco maior de artigos escritos por mulheres, mas a sua produção não foi visível ao longo do tempo; elas questionam, então, qual o motivo para que isso aconteça (duvidam, inclusive, que seja questão de qualidade, e apostam na valorização do trabalho feminino para superar isso).

De acordo com reportagem na revista eletrônica ComCiência, “embora sejam maioria, as mulheres ainda enfrentam dificuldades para progredirem na carreira acadêmica (…) A antropologia serve de exemplo como uma das áreas das ciências humanas que, mesmo com maior concentração feminina (tem média nacional de 70%  das egressas no mestrado), observa uma “masculinização” conforme a progressão dos níveis de titulação acadêmica: no doutorado a média nacional de egressas na antropologia, por exemplo, cai quase pela metade.”

“Dados da UfsCar servem de exemplo para esse fenômeno. O curso de ciências sociais, por exemplo, teve, em 2002, uma turma de graduação composta por 12 homens e 23 mulheres. No mesmo ano, no mestrado, o número de homens passa a ser maior do que o de mulheres: 11 contra 8. No doutorado, o número se equipara, e a turma passa a ser composta por 5 homens e 5 mulheres. (…) A redução da concentração do número de mulheres e conseqüente equilíbrio entre os sexos nos níveis mais elevados da academia nas ciências humanas ocorre porque a mulher encontra obstáculos para a progressão na carreira. É o que a antropóloga e representante das ciências humanas na Capes, Miriam Grossi, chama de teto de vidro. ‘As mulheres têm a ilusão de que elas podem subir, mas em algum momento alguma coisa impede’, afirma. Isso faz com que os cargos de diretoria, de chefia e de representação continuem sendo ocupados por homens. Para Grossi, além da discriminação que a mulher sofre no meio acadêmico, outros papéis atribuídos socialmente às mulheres contribuem para o adiamento ou abandono da carreira. Nesse sentido, a historiadora Rachel Soihet acrescenta que a maneira como a sociedade se organizou faz com que a obrigação de socializar os filhos seja feminina. ‘O Estado deveria fazer com que as escolas preparassem essas crianças. Uma readequação do papel da mulher é também um dever do Estado’, afirma Soihet’.”

Afinal, por que a escolha varia tanto conforme os sexos?

Bom, dizer que a escolha da área profissional pode ser atribuída a diferenças entre os cérebros masculino e feminino, como muitos alegam, levanta várias questões; inúmeros estudos avaliam essas diferenças, mas nunca chegam a um acordo. Não podemos negar que podem algumas diferenças podem de fato existir, mas devemos lembrar que elas também acontecem entre indivíduos do mesmo sexo. Da mesma forma, ao avaliar o sucesso de um indivíduo em um campo profissional (e consequentemente o sucesso do grupo do qual ele faz parte), também precisamos considerar os fatores sócio-culturais. Sim, todo mundo sabe que, a par das transformações no mundo do trabalho, a mulher ainda é responsável por uma carga extra de trabalho em casa e com os filhos, e isso inevitavelmente influencia e limita suas escolhas e opções profissionais, bem como sua dedicação à carreira.

E quando os homens buscam profissões consideradas de mulheres? Bem, o grau de inserção masculina varia nas profissões dominadas por mulheres. Em algumas, porém, a predominância é nitidamente feminina, e às vezes é difícil encontrar pelo menos um ser do sexo masculino nas salas da aula. Pois é, a TO é um bom exemplo disso! E as observações colocadas acima, por pesquisadores e profissionais de outras áreas eminentemente femininas, se aplicam ao nosso campo.

Mas até que ponto a predominância feminina afeta o desenvolvimento de uma profissão e seu status?

Atributos tidos socialmente como masculinos ou femininos são importantes e úteis conforme a situação, e o predomínio de homens ou mulheres em determinada profissão deixa evidente um certo desequilíbrio – isso influencia, como já  vimos acima, o próprio desenvolvimento de uma profissão, status, visibilidade, relações de hierarquia e até a produção científica. Mas isso vai além de existirem tantos homens ou mulheres exercendo certas profissões.

Para chegarmos a um ponto positivo, na verdade, precisamos enxergar o feminino e o masculino como polaridades complementares, e não como aspectos opostos e conflitantes. Se de um lado, características tidas como femininas são vantajosas para o desempenho de certas profissões, isso não significa que homens não possam desenvolver essas mesmas características, ou que toda mulher tenha que apresentá-las. Ao mesmo tempo, desenvolver características associadas culturalmente ao masculino, como competitividade, assertividade e objetividade, entre outras, também é fundamental para superar esse desequilíbrio e alcançar novas conquistas.

Claro, também, que não precisamos anular as diferenças, e sim saber aproveitá-las em nosso favor. A própria sensibilidade, intuição e delicadeza associadas às mulheres precisam também deixar de ser vistas como características inferiores. Aliás, esses são aspectos cada vez mais valorizados no mundo profissional e mesmo corporativo, e muitas mulheres (e homens) têm aprendido como aproveitar melhor tais características, em seu próprio favor e também do seu grupo.


Veja mais sobre o assunto em:

Mirla Cisne – 2004 – Serviço Social: uma profissão de mulheres para mulheres? Uma análise crítica da categoria gênero na histórica “feminização” da profissão – Tese de Mestrado em Serviço Social – Universidade Federal de Pernambuco

Ana Maria Vilela, Dejany dos Santos e Lucila Lima – Mulheres na Psicologia: os Arquivos Brasileiros de Psicotécnica

Cristiane Farias, Letícia Cândido, Natália Melin, Thaísa Mazai, Vanessa Santos e Nilma Almeida – Profissão e Gênero: uma questão biológica ou social?

Raquel Belo, Tâmara Sousa e Leôncio Camino – Trabalho de Mulher? Um levantamento sobre profissão e gênero

Edição da revista eletrônica ComCiência sobre mulheres na ciência

Átala Garcia, Teresinha Constantinidis, Gilma Coutinho, Elizabete Oliveira e Flávia Oliveira – Gênero e Saúde: discussão pertinente entre docentes

Isabel Georges – Mulheres entre vida doméstica e profissões de nível superior: comparações internacionais (o caso das engenheiras)

Gênero ainda influencia na escolha da profissão

Homens já se atrevem a ter profissões de mulheres

Desigualdade de gênero condiciona escolha de profissão


TO, direção e mobilidade

(Atualizado com links ao final do post para as normas da ABNT sobre acessibilidade a meios de transporte)

Uma área de atuação muito interessante da TO e sobre a qual a gente costuma ver de vez em quando notícias e artigos na internet (nada em português, infelizmente) é a relacionada à avaliação, orientação e reabilitação de motoristas. Afinal, a capacidade de dirigir com desenvoltura e segurança está intimamente relacionada ao senso de autonomia e competência, além de ser necessária para a realização de certas atividades do dia-a-dia e para o desempenho de alguns papéis. Em um mundo onde o trânsito e o transporte ficam cada vez mais complicados, então, esta é uma habilidade importante e muito útil. Nos casos, porém, em que desenvolver ou recuperar tal habilidade não é possível – ou mesmo viável – o Terapeuta Ocupacional também pode auxiliar no processo de transição para outros meios de transporte e mobilidade na comunidade.

Aliás, o Terapeuta Ocupacional tem muito a contribuir nessa área, considerando-se sua capacitação para a análise das atividades humanas em seus vários aspectos, envolvendo fatores do indivíduo, do contexto e do ambiente.

Um dos exemplos da atuação do TO está no site da AOTA (Associação Americana de Terapia Ocupacional), que disponibiliza informações e referências para profissionais que trabalham com motoristas que, devido às mudanças decorrentes do envelhecimento, podem ter problemas com sua segurança e independência. O site da CAOT (Associação Canadense de Terapia Ocupacional) também disponibiliza várias informações a respeito. Outro site com muitas informações sobre direção segura, em inglês, é o Drive Safety, que fala de ciências relacionadas à essa área e também da TO.

Cito também uma notícia publicada na semana passada no La Crosse Tribune.com a respeito de um evento, parte do programa “CarFit”, em várias cidades dos Estados Unidos, no dia 10 de outubro. A proposta é muito interessante e útil: orientar os motoristas a ajustarem corretamente itens de seus veículos como espelhos, bancos, volantes e cintos de segurança. O objetivo, segundo o Terapeuta Ocupacional Gundersen Lutheran, é otimizar o ajuste dos motoristas ao veículo para aumentar a segurança, em uma abordagem preventiva. Segundo os organizadores, o evento é direcionado a adultos com mais de 65 anos, mas é útil para pessoas de todas as idades, e a checagem leva cerca de 20 minutos.

Quanto ao tal programa “CarFit”, vejam que bacana (vi a informação aqui): é um programa nacional, não-lucrativo, direcionado a motoristas mais idosos para assegurar que os seus carros estejam adequados às suas condições de envelhecimento, e foi desenvolvido pela AOTA, em conjunto a Sociedade Americana de Envelhecimento. O programa é baseado em uma inspeção do tipo drive-thru no carro.

Entre os 12 itens checados, conforme notícia disponível aqui, estão: “A pessoa está posicionada corretamente no banco do motorista? Ela pode alcançar facilmente os pedais? Ela sabe ajustar os espelhos adequadamente ou tem a flexibilidade necessária para vê-los?” Depois da checagem, o motorista tem uma consulta com um Terapeuta Ocupacional que lhe fornece as orientações e os encaminhamentos necessários, caso seja verificado um problema ou uma necessidade específicos.

Tendo em vista as condições cada vez mais estressantes do trânsito hoje em dia e o envelhecimento da população, percebemos a importância e a oportunidade de iniciativas como essa. Com o aumento da idade, aumentam também os riscos de acidentes, especialmente se o motorista não recebe acompanhamento ou não tem consciência de suas dificuldades, como diminuição da acuidade visual, força e velocidade de resposta, entre outras. Segundo Mary Beth Meyer, TO americana especialista em reabilitação de motoristas, alguns dos sinais de alerta incluem: dirigir muito devagar; falhar em observar sinais e semáforos; facilidade em ficar frustrado ou confuso e dificuldade de interpretar situações no tráfego.

Pra finalizar, algumas informações retiradas do Fact Sheet da AOTA sobre “O Papel da Terapia Ocupacional na Direção e Mobilidade na Comunidade ao longo da vida” (conforme tradução tosca minha, rs):

A mobilidade na comunidade pode ser definida como mover-se na comunidade e utilizar transporte público ou privado, como dirigir ou acessar ônibus, táxis ou outros sistemas de transporte. Ela é um aspecto importante da participação humana ao propiciar o engajamento em ocupações fora de casa. Os programas de Terapia Ocupacional podem reforçar a mobilidade na comunidade e a direção como ocupações importantes ao oferecerem uma ampla gama de serviços relacionados, dentro de tais programas ou por encaminhamentos. Os Terapeutas Ocupacionais abordam essa área a partir da avaliação de indivíduos, organizações e sistemas para realizar as intervenções necessárias para promover a participação e preservar a segurança.

Coloco aqui alguns tópicos de atuação, relacionados à avaliação e à intervenção, citados no referido documento:

Avaliação ao longo de diferentes fases de desenvolvimento:

  • Verificar a segurança das crianças como passageiras;

  • Avaliar a capacidade do sistema de transportar estudantes com e sem deficiências;

  • Determinar se a criança está pronta para andar de bicicleta;

  • Avaliar a habilidade de atravessar a rua e de andar em esquinas e calçadas;

  • Avaliar as habilidades motoras visuais necessárias para ver os sinais;

  • Verificar se adolescentes estão prontos para dirigir;

  • Avaliar a habilidade para acessar e usar outros tipos de transporte além de carro particular;

  • Avaliar a habilidade de dirigir e a segurança de adultos com deficiências;

  • Avaliar a adequação entre o veículo e o motorista para adultos idosos.

Intervenção: os Terapeutas Ocupacionais podem:

Criar:

  • Promover o uso de alternativas de transporte;

  • Criar uma rede de recursos na comunidade para apoiar os clientes depois que pararem de dirigir.

Estabelecer / restaurar:

  • Estabelecer uma rotina para a mobilidade na comunidade para o uso eficiente dos serviços de trânsito;

  • Restaurar a amplitude de movimento ou força ;

  • Promover a capacidade de solução de problemas e a segurança através de treino cognitivo.

Manter:

  • Atuar para ajudar a manter a comunidade segura, limpa e própria para caminhar ou andar de bicicleta através de ações direcionadas aos serviços municipais.

Modificar:

  • Equipar o veículo com equipamento adaptativo para compensar déficits de função motora ou sensorial.

Prevenir:

  • Prevenir acidentes e lesões através da promoção do uso adequado dos dispositivos de segurança do veículo.

Em suma, pra quem quer informações sobre o assunto, em inglês, dá pra achar muita coisa. Pra falar a verdade, eu nem pesquisei em português, já achando que não ia encontrar o que queria. Porém, se alguém tiver alguma informação, referência ou notícia sobre este tema, relacionando-o à TO, em português, me avise, para que eu possa acrescentar aqui. Aliás, quem sabe alguém não se anima a pesquisar e publicar algo a respeito aqui? Fica a sugestão! :)

Post relacionado:

Táxi adaptado na Semana da Pessoa com Deficiência em BH

Informações sobre normas de acessibilidade a meios de transporte – links para as normas listadas abaixo através da página do Programa de Acessibilidade CREA-PR ou do Núcleo Regional de Informação sobre Deficiência.

  • NBR 14020 – Acessibilidade a Pessoa Portadora de Deficiência – Trem de Longo Percurso
  • NBR 14021 – Transporte – Acessibilidade no sistema de trem urbano ou metropolitano
  • NBR 14022 – Acessibilidade a Pessoa Portadora de Deficiência em Ônibus e Trólebus para Atendimento Urbano e Intermunicipal
  • NBR 14273 – Acessibilidade a Pessoa Portadora de Deficiência no Transporte Aéreo Comercial
  • NBR 14970-1 Acessibilidade em Veículos Automotores- Requisitos de Dirigibilidade
  • NBR 14970-2 – Acessibilidade em Veículos Automotores- Diretrizes para avaliação clínica de condutor
  • NBR 14970-3 Acessibilidade em Veículos Automotores- Diretrizes para avaliação da dirigibilidade do condutor com mobilidade reduzida em veículo automotor apropriado
  • NBR 14022 – Acessibilidade em veículos de características urbanas para o transporte coletivo de passageiro
  • NBR 15450 – Acessibilidade de passageiro no sistema de transporte aquaviário

Revisão do Rol de Procedimentos da ANS

O que é o Rol de Procedimentos?

O Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) é a listagem dos procedimentos em saúde cuja cobertura é garantida a todos os usuários dos planos adquiridos a partir de 2 de janeiro de 1999. Ele é a referência de cobertura mínima obrigatória para cada segmentação de planos de saúde (ambulatorial, hospitalar com ou sem obstetrícia e plano referência) contratada pelo consumidor. A lógica do Rol é voltada para a cobertura e não para a cobrança e, além disso, o Rol define para cada procedimento as segmentações de planos de saúde que devem ou não cobri-lo obrigatoriamente.

A primeira versão do Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da ANS foi estabelecida em 1998 pela Resolução do Conselho de Saúde Suplementar (CONSU) nº 10 e a partir daí fpassou por algumas revisões. A Resolução atual é a 167, de 9 de janeiro de 2008, disponível aqui. (Fonte: site da ANS)

E como fica a cobertura dos serviços de Terapia Ocupacional?

Os procedimentos de avaliação, reeducação e reabilitação realizados pelo Terapeuta Ocupacional em ambulatório (Subgrupo Reabilitação, no Capítulo Procedimentos Clínicos, Ambulatoriais e Hospitalares do Anexo I da RN 167/08) são limitados a 6 consultas/sessões por ano (é isso mesmo que você leu, colega. De qualquer forma, ainda é um avanço, já que antes não havia nem essa cobertura). O mesmo acontece com as sessões de fonoaudiologia e nutrição, enquanto as sessões de psicoterapia são limitadas a 12 por ano.  Por outro lado, quando executados por médicos fisiatras ou fisioterapeutas, esses procedimentos têm cobertura ilimitada.

E se o atendimento de Terapia Ocupacional se der durante a internação?

Durante a internação os atendimentos com outros profissionais de saúde, desde que constantes do rol e solicitados pelo médico assistente, estão obrigatoriamente cobertos.

O que é consulta pública e como isso pode ajudar a ampliar o rol de procedimentos?

A Consulta Pública é um instrumento utilizado pela ANS para possibilitar aos interessados (consumidor, gestor, operadora ou prestador de serviços) a realização de comentários, críticas e sugestões sobre propostas dessa agência.

Em 8 de setembro de 2009 a ANS abriu a Consulta Pública  31, com prazo de 30 dias (ou seja, até 7 de outubro de 2009) (atualização: o prazo foi estendido para 30 de outubro), para ampliar a cobertura obrigatória dos planos de saúde. Conforme notícia disponibilizada no site do Coffito, uma das mudanças propostas é o aumento do número de consultas de Terapia Ocupacional na área de Saúde Mental (reconhecida como especialidade do TO em maio último pela Resolução 366/09). Para mais informações, vejam os itens 53 e 54 aqui.

 

Post relacionado:

Mais esclarecimentos sobre o Rol de Procedimentos da ANS